Frei Galiano despede-se dos paroquianos da Sé Catedral com muita emoção

Site da Catedral não esquece o seu contributo com alguns artigos e por isso  convidou-o para uma entrevista de despedida que não hesitou em aceitar. Para o colectivo do Site é  uma despedida para breve.

Site da Catedral – Frei Galiano momentos emocionantes marcaram a hora da despedida na celebração da  missa na Sé Catedral de Bissau?

Frei Galiano Gomes – Dos momentos emocionantes, neste dia, que foi  de despedida foram três: eu apontava a surpresa muita agradável que as crianças do Grupo Coral preparam e que me fizeram emocionar. Foi um gesto de muita amizade  de carinho e também de surpresa.

SC – Frei  deixou escapar um pouco de  lágrimas – risos antes e de seguida respondeu.

Frei Galiano – Sim, sim. É minha convicção que não é difícil deixar escapar as lágrimas, nos momentos como esse. Difícil seria a insensibilidade relativamente a certos gestos, atitudes, como foi hoje na Paróquia da Catedral.

SG – Padre  percebeu que a sua emoção contagiou algumas pessoas?

Frei Galiano – Não, porque também não tinha muita facilidade em perceber.

SC – Estava cabisbaixa , não foi ?

Frei Galiano – Sim, fiquei cabisbaixa. Entretanto, Já na Sacristia percebi que nas faces de algumas  três pessoas escapavam lágrimas. Disse-os  que o momento não era de lágrimas,  porque não havia nenhuma tristeza, mas alegria. Também vivi esta alegria, de poder,  no final de três anos partir para Brá com ânimo renovado.

SC – Isso demonstra muita afectividade dos paroquianos para com o Frei ?

Frei Galiano – Eu sou testemunha disso. Foi de muita atenção, de  muito carinho. Fui sempre   muito bem tratado.  isso deixa-me sentimentos de  reconhecimento e de agradecimento.  Apesar de eu também sempre carregar em mim, essa prontidão, essa disponibilidade para servir muito bem a  comunidade cristã que acolheu-me durante três anos.

SC – Vamos a segunda pergunta…

Frei Galiano – Ainda relativamente a primeira pergunta gostaria de sublinhar outros dois momentos marcantes que na hora da despedida. Sabe – pausa e prosseguiu – é uma comunidade que, marcou-me muito. Não podia deixar de ficar emocionado no momento de separação.  O terceiro momento, finalmente, foram as palavras do Pároco que foi também, durante todo esse tempo, meu Custódio e estivemos a colaborar nos trabalhos da Paróquia. Foi muito agradável ouvir que  ele é meu irmão  mais velho, não apenas isso, mas de uma amizade que veio de muito tempo e que eu sou o seu irmão mais novo, ocupando um lugar na sua vida. Para mim isso é particularmente marcante.

SC – Frei, em três  palavras pode  caracterizar esses três anos de trabalho na Paróquia Nossa Senhora de Candelária?

Frei Galiano – Diria Colaboração, Serviço e Fraternidade com todos. Eu sou grande admirador e respeitador de qualquer que seja a comunidade cristã . A comunidade cristã é que  merece todo o nosso empenho, todo o nosso  serviço, que deve absorver todas as nossas forças e criatividade. Foi o que,  conscientemente,  carreguei durante todos esse anos. Sem deixar de referir que se houver alguma falha é porque também não sou perfeito. A comunidade cristã merece tudo de nós. Colaboração sim,  porque ninguém leva a comunidade cristã pelas costas,  pelo contrário ela é que deve saber andar com os próprios pés. Pode ser animada, dirigida pelos pastores,  mas nunca ser rebocada por qualquer que seja a pessoa. Por isso senti-me, durante todo esse tempo,  membro da comunidade cristã. Isso espelha a minha postura de colaborador durante todo esse tempo. Finalmente respeito todas as pessoas e isso desabrocha num clima de muito respeito recíproco. Sem humilhações, sem gritaria um pelo outro, ainda que tenha uma orientação a dar, uma correcção a fazer. Essas três alavancas vão relançar-me por uma nova missão: Serviço, Colaboração e fraternidade,  na base de respeito. Relativamente a nova missão vou para uma paróquia que é   minha de origem, Paróquia S. João Baptista de Brá. Nunca lá trabalhei como padre quanto mais como Pároco. Saí de lá,  há nove anos,  desde 2009. Vou para uma Paróquia da qual vou precisar de conhecer melhor. Precisarei de ajuda de todos como foi na Catedral onde a tive. Já alguns adiantam a telefonar-me  a dizer , olha venha, a Paróquia precisa de si , há que fazer certas mudanças… mudanças? – faz uma pausa e depois prossegue. – Comigo as coisas não funcionam assim. Eu sou da opinião e continuo a dizer que essa atitude é errada. Primeiramente,  porque vou precisar de uma integração, colaboração de todos para mudar o que precisa ser mudado, assegurar o que está bem e melhorar o que precisa ser melhorado. Essa postura de muita abertura, de serviço,  de um trabalho de equipa é que me leva  para esta nova Paróquia. Até porque eu sei que a Paróquia cresceu bastante, envergando seis  outras comunidades, para além daquela que é mãe ou central. Vou precisar de todos para tal.  A  minha própria disposição testemunhará essa abertura,  essa necessidade de todos  andarmos de mãos dadas para o bem da nossa futura  Paróquia de Brá. Tudo isso é novo para mim,  mas a disposição não falta. Vamos dar a nossa participação e a nossa colaboração.

SC – Que conselhos é que quer deixar aos paroquianos da Sé  Catedral?

Frei Galiano – Primeiramente,  partindo de mim mesmo, cheguei há três anos e já estou de partida. As coisas devem ser vistas como são. Quero dizer que  com isso que os Verdadeiros paroquianos são os próprios paroquianos. Por muito que possam durar os padres acabam por ir embora. Assegurar  a nossa Paróquia para ser a nossa própria imagem. Sabendo de antemão que a Paroquia da Catedral é de referência,  porque difere com outras. Difere com outras porque foi mais trabalhada  e mais refinada. Por isso não se deve baixar a guarda nem a linha. Deve-se lutar para manter essa postura. Dar tudo que têm a dar,  porque isso  vai incidir directamente na vida litúrgica. No preparo dos cânticos, nas leitura, em ministrar a comunhão,  na catequese. Deve haver uma mão cheia em cada um desses serviços, porque também, afinal,  Catedral recebeu tanto,  de igual modo  vai ser exigida a dar  tal como recebeu. Por isso Catedral não pode baixar os braços.Os paroquianos não podem desleixar-se  como outras Paroquias se é que acontece. Uma outra coisa que eu gostaria de  deixar como conselho é de curarem, de assumirem a vida relacional, de se  interessarem um pelo outro. Que sejam dispostos a passarem mais tempo na Igreja. Terem alegria de estarem juntos.  Partilhar algum momento de enterração após a missa. Que não seja momento de dispersão após a bênção final. Não ter medo da Igreja que é nossa casa. Que seja  momento privilegiado,   Conversar e viver a fraternidade.

 SC – Ultimas considerações.

Foquemos no presente,   porque a vida precisa do passado e do futuro,  mas ela não se faz sem o presente.

Gostaria de advertir os cristãos da Paróquia da Sé Catedral para estarmos preparados com essas mudanças. Quem vai, vai com a Paróquia no coração. Quem vem,  precisa ser ajudada na sua integração. Eu penso que Haverá mais facilmente essas  partidas. Quem  vem, vem   sempre no momento certo que Deus marcou e que a Paróquia precisa. Podemos até ver o exemplo dos Papas, ultimamente. Com João Paulo II era o Papa que marcou todo o mundo. Depois veio o Papa Bento XVI e rapidamente todo o mundo viu que era o Papa que faltava na altura,  com  a sua reflexão teológica sem igual. Rapidamente veio o Papa Francisco I e todo mundo dizia se não houvesse esse Papa Francisco no auge da Igreja o que seria. Então,  é  apenas um paralelismo, uma transposição que eu fiz, mas agora eu quero dizer que  se houver alguma partida , se calhar está a acontecer no momento certo, mas sobretudo quem vem ou quem fica é que deve ser  visto como sinal de Deus para a vida e a necessidade da Catedral hoje. Então vai continuar o Frei Victor e virá, seguramente, o Frei Rachid, que vai colaborar e estes são os planos de Deus para a vida e caminhada da Igreja da Catedral. Então que não vivamos dos sentimentos das  experiências passadas,  sejam elas boas ou más,  que nos foquemos no presente,   porque a vida precisa do passado e do futuro,  mas ela não se faz sem o presente.

Texto: António Tavares

Fotos: Policiano Gomes

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