Solenidade de Cristo Rei

Homilia do Pároco da Sé Catedral de Bissau, Frei Victor Quematcha

Caríssimos irmãos e irmãs em Cristo, que o Senhor Jesus Cristo reine em nossos corações, reine no mundo, em África e na Guiné-Bissau!
Celebramos hoje a Solenidade de Cristo Rei do Universo, uma festa que encerra o Ano Litúrgico. É uma festa que para nós cristãos tem um significando profundo: Jesus é o começo e o fim da história humana.
A Solenidade de hoje foi instituída pelo Papa Pio XI em 1925.

Ao instituir este dia, o Papa quis encorajar os fiéis leigos católicos a se comprometerem no testemunho do Evangelho. O Papa queria que os leigos compreendessem que têm a missão de informar o mundo, com a própria vida, dos valores da verdade, da justiça, da liberdade e do amor, tendo como referência a pessoa de Jesus.

Segundo algumas fontes, durante algumas dezenas de anos, alguns fiéis faziam o seu juramento nesse dia para mostrar a sua fé inabalável em Jesus Cristo que querem anunciar de todas as formas.
O Papa quis que os fiéis leigos compreendessem que são chamados a anunciar o reino de Deus, segundo a lógica de Deus. É precisamente essa lógica de Deus que nos é presentada no evangelho de João (Jo 18,33b-37).

Jesus assume a realeza, mas deixa transparecer que a sua maneira de reinar, de governar é diferente daquela a que estamos habituados.
De facto, na sua resposta a Pilatos que queria saber se ele era rei, Jesus assume a sua condição de Rei. Mas revela logo que a sua realeza não está em esquemas de ambição, de poder, de autoridade e de violência, como acontece com os reis deste mundo. O reinar de Jesus consiste em dar testemunho da verdade. “Vim ao mundo a fim de dar testemunho da verdade.
Alguém disse que Jesus não veio para ensinar a verdade como faziam os sábios, mas para testemunhar a verdade. Mas o que é então a verdade?
Para os filósofos gregos, a verdade é a essência das coisas. A verdade indica a queda de qualquer véu. Ligada a esta verdade filosófica há também a verdade histórica, que consiste em relatar de forma objetiva os factos exatamente como aconteceram. Mas para os hebreus, a verdade não é só a essência das coisas. Na Bíblia, a verdade é a fidelidade à palavra dada. A verdade é estabilidade e perseverança. A verdade é aquela pessoa que merece confiança.

Por isso, quando Jesus diz que veio dar testemunho da verdade, quer revelar que Deus é verdade, isto é,
que é fiel. Deus nunca se desmente. Mantém as promessas que faz.
Como afirma Fernando Armellini, quando Jesus afirma que veio dar testemunho da verdade, revela-nos que, com a sua presença no mundo, com a sua vida gasta por amor, demonstra a fidelidade de Deus ao seu pacto com a pessoa humana. É isso que ele veio testemunhar.
Ele revela-nos que a sua realeza não tem nada a ver com a lógica de realeza a que o mundo está habituado. O nosso rei apresenta-Se aos homens sem qualquer ambição de poder ou de riqueza, sem o apoio dos grupos de pressão, sem qualquer compromisso com as multinacionais da exploração e do lucro, sem compromisso com as multinacionais que financiam a política e a campanha de alguns partidos políticos para depois explorarem os recursos naturais dos nossos povos.
É interessante ver que, diante de Pilatos e dos Sumos Sacerdotes que queriam eliminá-lo, Jesus se apresenta só, indefeso, prisioneiro. Não estava armado. O Pilatos e os Sumos sacerdotes estavam armados. Tinham guardas, mas Jesus estava sozinho. É exatamente assim que Ele se apresenta a nós até hoje. Vem armado apenas com a força do amor e da verdade. Não impõe nada. Ele propõe que acolhamos no nosso coração uma lógica de amor, de serviço, de obediência a Deus e aos seus projetos, de dom da vida, de solidariedade com os pobres e marginalizados, de perdão e tolerância. É com estas “armas” que Ele vai combater o egoísmo, a auto-suficiência, a injustiça, a exploração, tudo o que gera sofrimento e morte e quer que utilizemos as mesmas armas para ajudar na libertação dos nossos irmãos.

Como disse um biblista, esta é uma lógica desconcertante e incompreensível, à luz dos critérios que o mundo avaliza e enaltece. Por conseguinte, todos aqueles que integram a comunidade de Jesus devem dar testemunho da lógica de Jesus.
Mesmo contra a corrente, a vida dos discípulos de Jesus, as suas opções, a sua forma de se relacionarem com os outros devem ser marcadas por uma contínua atitude de serviço humilde, de dom gratuito, de respeito, de partilha, de amor. “Como Jesus, também nós temos a missão de lutar – não com a força do ódio e das armas, mas com a força do amor – contra todas as formas de exploração, de injustiça, de alienação e de morte… O reconhecimento da realeza de Cristo convida-nos a colaborar na construção de um mundo novo, do Reino de Deus”.
Caríssimos irmãos e irmãs, a festa de hoje, revela-nos que o Reino que Jesus veio implantar na terra tem como fundamento o amor. Num dos seus comentários a este texto, os padre Joaquim Garrido, Manuel Barbosa e Ornelas Carvalho no Reino de Jesus, a autoridade é o serviço e o perdão é a ponte que une os irmãos! Neste Reino, não há espaço para a violência, as operações de guerra se concentram no serviço ao próximo, e uma dessas operações, o
próprio Jesus a realizou nas vésperas de sua morte, lavando os pés dos apóstolos, inclusive, os pés do seu traidor.
Caríssimos irmãos e irmãs, Caríssimos fiéis leigos e leigas, hoje é vosso dia. Hoje é a festa do laicado.  Em nome Deus, a Igreja vos pede que sejais testemunhas da verdade, fixando o vosso olhar na pessoa de
Jesus. Tendes a missão não só de constituir família, mas também de atuar profissionalmente com ética e dedicação.
Cada um de vós (leigo ou leiga) é chamado a assumir o grande desafio de ser pedra viva da Igreja terrestre, seguindo os passos de Jesus.
É evidente que vão encontrar muitas dificuldades nesta vossa missão. Pois, a nossa sociedade está dominada pelas forças do mal. A corrupção, a injustiça, a perseguição política, a calúnia, são as manifestações das forças do mal. Mas, colocando a nossa fé em Deus que é fiel, poderemos colaborar na criação de um reino novo onde se vive a irmandade.
Não é fácil ser cristão no nosso contexto. Há muita pressão da parte dos que praticam a religião tradicional ou dos próprios cristãos que praticam o sincretismo.
Hoje, não é fácil ser um bom funcionário. Pois, promove-se a incompetência e tudo é politizado. Há muita corrupção.
Não é fácil ser político, porque existem alianças obscuras. Por isso, queremos pedir a Deus que faça de cada um de vós testemunha da verdade. Que a fidelidade do próprio Deus seja a vossa força, o vosso refúgio, o vosso amparo!

Que o Senhor, por intercessão de Nossa Senhora da Candelária vos abençoe e abençoe as vossas famílias. Assim seja!

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